'Cada pedaço de seu corpo reclamava pela saudade. Seu rosto não conseguia sorrir, suas mãos não queriam mais realizar poucas tarefas, suas pernas não queriam andar. Seu coração apertado palpitava. Ela lembrava de seus gestos e sua alma sorria. Ouvia seu riso e com ele ria. Olhava pro lado e não o via. Fechou os olhos, se fechou. Se escondeu. Quando voltou, ele apareceu. Para logo ir embora e deixar o corpo dela reclamando de saudade de novo.'
terça-feira, 20 de dezembro de 2011
Tardio
'Ele me intrigava. Estava sempre ali mas eu não o conhecia. Olhava em seus olhos e não sabia o que olhar. Ele falava, eu ouvia, respondia. Tão vazio que nem valia a pena me preocupar. Eu sabia que em algum lugar ele era incrível, mas não comigo. Comigo ele era apenas interessante. Sem conversas pessoais, sem falar do passado, sem pensar no futuro. Eu não dava nada à ele, ele me dava sorrisos. E quando ele sorria tudo estava certo. Eu não era interessante pra ele como ele era pra mim, era apenas mais uma que ele fazia sorrir. Decidiu se afastar, decidiu que tinha enjoado, decidiu que não fazia diferença. Até notar que ele fazia toda a diferença.'
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Fim
'Ela ainda sentia o abraço, ainda ouvia a risada, ainda via o sorriso. Seu cheiro pairava no ar. Mas ela sabia que ele não voltaria, não agora. Nunca. O sorriso fora apagado em um segundo e nunca mais voltaria a brilhar. O estalo durou pouco, mas a dor foi eterna.'
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Imobilidade
'Ela sabia o que ia acontecer e mesmo assim não se mexeu. Não ousava fazê-lo. Não queria, mas não podia lutar. Fechou os olhos e esperou, com a pele toda arrepiada, esperou pelo toque, esperou pelo abraço, esperou pelo beijo. Podia sentir o nervosismo, podia sentir toda vez que engolia a seco, podia sentir o ar parado esperando acontecer. E antes que percebesse todo o ar à sua volta ganhou vida e foi sugado pra dentro de si. Sua alma vibrou e seu coração se arrepiou. Arfou algumas vezes e se entregou.'
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segunda-feira, 23 de agosto de 2010
Espera
Sentada na frente de casa ela via a vida passando. Era julho, dia 27, a exatos 12 anos seu marido morrerá, e desde então ela passava seus dias esperando pra se juntar a ele. Quem sabe hoje era o dia. Fechou os olhos, se encostou na cadeira, respirou fundo e relembrou o dia em que o conheceu, o dia em que se casou, dos filhos que não tiveram, e dos sonhos que não realizaram. Esperou a morte, rezou por ela. Quando não sentiu mais o vento abriu os olhos. Bosta, ainda estava viva. Quem sabe amanhã.
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sexta-feira, 26 de março de 2010
Me disfarço
'Coloquei um vestido curto demais para minhas pernas, com um decote excesivamente grande pra minha falta de seios. Deixei os cabelos soltos, caindo em leves ondas pelas minhas costas. Calcei a sandália mais alta que eu tinha. E passei muito mais maquiagem que o costume. Saí pelas ruas exibindo uma segurança que não era minha. Esnobando uma beleza que eu não possuía. Entrei em uma boate que eu odiava. Conversei com pessoas que normalmente me causavam asco. Ri de piadas que não achei graça. Bebi coisas que não gostava. Distribui alguns sorrisos sacanas, e seduzi alguns homens. Olhei no relógio, 5h da manhã. É, já era o suficiente. Saí da festa, entrei num táxi e voltei pra casa. Tirei as sandálias, coloquei um pijama, tirei a maquiagem e fui deitar. Aquela noite eu não tinha sido eu. Por que ser eu mesma todo dia cansa.'
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terça-feira, 23 de março de 2010
Quando?
E quando o ar à nossa volta congelada, e quando o tempo para, e quando o coração perde o compasso, e quando as cores ficam mais vivas, e quando você sabe. Pena que nem sempre a gente sabe.
Postado por Patrícia às 10:23 2 comentários